Uma Lição da Casinha do Cachorro

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Uma Lição da Casinha do Cachorro
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No início deste ano, me envolvi em um pequeno conflito disciplinar. Na semana anterior à audiência padrão, aproveitei cada oportunidade para aperfeiçoar minhas declarações e reações. Então, ao entrar na reunião com o Decano de Conduta Estudantil, eu tinha certeza de que meu caso seria arquivado e eu sairia impune. Como se vê, eu não estava totalmente certo. A sentença me condenou a 10 horas de serviço de limpeza no refeitório, o que foi realmente horrível. No entanto, o pior de tudo não foram as horas passadas esfregando o chão da cozinha. Essa lição dolorosa veio da instrução final do decano: refletir sobre o que eu havia feito.

Aliviada por a reunião ter terminado, saí com o conselho do reitor martelando na minha cabeça. Por que eu tinha que participar daquela reunião, afinal? Onde errei? Quem eu tinha afetado? O que eu poderia fazer para garantir que não me encontraria numa situação semelhante no futuro? Essas perguntas permaneceram na minha mente por semanas e, gradualmente, aos poucos, fui juntando algumas peças do quebra-cabeça, até que as respostas vieram. Aprendi sobre como as pessoas me percebem, como minhas ações impactam os outros e como lidar com situações difíceis de forma ponderada. No fim, para mim, foi bom ter me metido em encrenca. O tom severo, sério e sincero do reitor me obrigou a seguir seu conselho. Mas eu não teria crescido se não fosse pelo erro. Pelo constrangimento. Pelo ato de, bem, estupidez.

Sete meses depois, eu estava sentada no fundo de uma sala de aula virtual, entediada ao extremo. O objetivo da reunião era refletir sobre a experiência do intercâmbio. Poucos minutos após o início da palestra, a plateia se transformou em um bando de zumbis apáticos. À esquerda, uma garota roía as unhas, enquanto outra cochilava de lado, com a boca escancarada. Conforme o zumbido do dispositivo virtual ecoava, a energia da sala se esvaía. Isso continuou até que a palestrante mencionou "currículo". De repente, a sala ganhou vida. Cerrei os olhos, demonstrando desgosto, e fiz a expressão de "que diabos é isso?" mais decepcionante da minha vida. A palestrante finalmente havia conseguido a atenção da turma, mas pelos motivos errados. 

Se tivesse sido conduzida adequadamente, aquela reunião teria sido a aula mais esclarecedora do semestre. Em vez disso, uma aluna comprou um novo par de luvas na Shein, e eu terminei mais um dos meus quebra-cabeças de 300 peças, que são minha marca registrada.

Não pude deixar de comparar esse momento com meu encontro com o reitor. Aprendi que a reflexão não se trata de criar uma narrativa polida para a aprovação de outra pessoa. Trata-se de mergulhar no desconfortável, no confuso, no pessoal. Então, quando o computador perguntou “qual foi a sua melhor experiência estudando no exterior?”, a sala ficou em silêncio. Perguntas previsíveis não despertam engajamento. Elas desligam o cérebro.

Então, como capturar a atenção da geração TikTok? Você precisa começar com um "BAM". Algo inesperado, surpreendente, desconcertante. Talvez seja compartilhar um pedaço da sua história, como aquela vez em que você foi expulso de uma balada por fazer a minhoca em cima de uma mesa. Ou quando você dormiu no trem e acabou em uma vila remota sem sinal de celular. Passe vergonha. Faça as pessoas rirem. Quanto mais vulnerável, mais inusitada e mais autêntica for a sua história, mais as pessoas vão se envolver. 

Quando me aproximo de uma garota bonita que não conheço, digo a ela que está acontecendo um apocalipse zumbi AGORA. Você pode escolher três pessoas — reais ou fictícias — para se juntarem à sua equipe de sobrevivência. Quem você escolheria e por quê? É uma pergunta absurda, mas é surpreendente, divertida e reveladora. A família importa mais do que a sobrevivência? Você é um lutador? Um solucionador de problemas? Um romântico? É uma conversa que diverte e, ao mesmo tempo, leva à reflexão sobre o que mais valorizamos.

É claro que a palestrante da semana passada não pôde fazer essa pergunta à turma. Mas ela poderia ter nos feito rir, compartilhado uma história de sua vida e então nos perguntado: qual foi o maior erro que você cometeu no exterior? Você conheceu alguém de quem se lembrará para o resto da vida? Se você pudesse levar para casa uma coisa que perderá após a viagem, o que seria? Essas perguntas são vulneráveis, envolventes e reflexivas. São pessoais demais para serem ignoradas.

Então, se o apresentador tivesse adotado uma abordagem mais pessoal e não convencional para a reflexão, como a turma teria reagido? Estas seriam as minhas respostas:

Na Inglaterra, tomei uma cerveja com um policial de folga, que passou toda a carreira no exército e na polícia, mas nunca teve uma arma. Vi, ao vivo, um dos melhores jogadores de futebol do mundo acertar um chute incrível no ângulo esquerdo, de fora da área, para selar a vitória. Rasguei minha jaqueta favorita pulando uma cerca com pontas. Um homem que trabalhava no estacionamento ameaçou chamar a polícia, mas, felizmente, quando me virei, ele me reconheceu das horas que passei no antigo galpão Pianodrome, praticando Queen em pianos reformados. Conversei mais francês com meu colega de quarto e colega de classe do que em qualquer sala de aula. Conheci uma garota da Califórnia que me fazia sorrir sempre. 

O que coloquei no currículo não importa. O que importa são as histórias que carrego e a pessoa em que me tornei. E é por isso que, sete meses depois, ainda sou grato ao reitor que me pediu para refletir. Não me lembro da punição em si, mas do erro que cometi e da lição que aprendi.

Há muito mais para explorar.

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